quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Felicidade de bocados.

As janelas continuavam escancaradas, estava sol e era verão, o ano mal começara. "Começara mal" repetiam cada vez mais alto, mas ninguém se importava, afinal, estava morno, as crianças brincavam em seus arrigadores automáticos e a vida lhes sorria. Tudo tinham enquanto ainda pudessem fingir.
Fingir que o tempo não os afetara, e que a vida continuava mansa como sempre. "Fingia ser um pássaro, fingia me perder pra não ver a verdade." Repetia a moça pra si mesma, ainda sorrindo ao observar os pássaros em sua rota. "Pássaros são livres" - continuava a dizer nos intervalos de longas gargalhadas - "e eu não era, nunca fui, mas agora sou um pássaro e posso enfim voar."
A tarde caia lentamente e ninguém percebia, seguiam cantarolando, quase em tom inaudível, o quão boa era a liberdade, o mundo e tudo mais.
Fingiam, fingiam que tudo era bom e nunca erravam, fingiam-se de sãos pra não encarar a loucura.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Despedida.

"Lhe disse como estás linda nesta noite? Estás linda, menina" - Já não era pequena há muito, mas o prazer de chamar-lhe menina nunca se perdia dentro de mim.
 "Tu és encantadora, menina dos meus olhos" - Nos segundos de quietude que se seguiram percebi como meus dizeres pareciam palavras cuspidas a procura de conforto, como quem repete versos encontrados em velhos livros mofados.
Seu olhar frio vagava pela sala, não sabia ao certo se havia escutado o que lhe dissera, mas ela não se importava com minhas palavras, coisa alguma anularia sua decisão muda, de nada adiantariam belas rimas enquanto fossem de mesma intensidade vazias.
"Está frio, entre comigo. Não sei o que sentes. Seu silêncio me incomoda." - Quando abriu a boca não havia som, as palavras derreteram na garganta e no momento no qual sua boca se fechou senti que seu sorriso morria.
Se foi no mesmo silêncio em que permanecera, ao tentar me lembrar confundo sobre a sua existência, lembro de seus olhos nublados de tristeza vagando entre um meio sorriso e outro. Sua imagem, tantos anos depois, é quieta, chega na calada da noite e me deixa imóvel, naquele momento sinto sua solidão como sendo minha, que aos poucos se torna sossego, como a noite escura em que nos encontramos pela última vez
Pouco antes de sua imagem se apagar por completo, queima-me alegria calorosa de quando não lhe disse adeus.
Foi-se embora a menina dos olhos tristes que não gostava de despedidas.